Moinho

Então, tenho que te de-volver as ruas de pedra caminhadas, as sombras no leito do rio à noite,

os inúmeros copos inebriantes, o ruído de ferro no meio da tarde e as manhãs como lençóis brancos.

Para te ver-volver tenho que te entregar as dobras dos sinos e seus pés descalços que roçam meu tornozelo.

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Kahlo-Rivera

A possibilidade consome a carne,
corrói as entranhas
envenena aos poucos a vontade.
Mata, sem compaixão.
pensar é um vício.
Se sentir indefeso é se sentir incapaz.
Não há nada de sublime
em não ter nada de sublime para dizer.

Insônia

O que fica suspenso no tempo
é a falta do verbo,
a incansável derrota do movimento,
o suspiro notívago
e aquele ar de infelicidade por não ter sido, outra vez, surpreendida pela incontável destreza do dia.

Não durmo. Já não esqueço de mim.

Imploro pelo grande escuro das pálpebras fechadas,
pelo espasmo oceânico da boca,
pelo cair simétrico dos músculos.

Que venha a infinidade temporária da suspensão do dia.

Aritmética

É preciso ter calma,
Não se desamarra o tempo com força.

Sutileza, ofegante jornada:
O destino não é um palco.

Não se descortina a verdade,
Nem se cala o medo.
Desafio: A menor distância não é linha reta.

É lá, onde as vontades se aninham,
e o que resta se esconde:
Relógio, cadeado de todas as conjugações.

Poema de falar (Maiakóvskiana)

Da boca que se abre em palavra
desponta o gosto da sintaxe
-híbrida
por mais que não tenha cheiro
-percebida
pelo som que também consome e dá
-sentido
ao que corre na veia
-sangue
misturado com um pouco de tudo que eu nem sei mais.

Húmida,
vibra das veias às cordas
do só de dentro
para a multidão de fora.

Ode ao café

Tenho fé
no café
nosso de cada dia
abençoado seja
por transformar sono em euforia
e fazer de toda conversa mundana;
confissão espiritual.

Tenho fé
no café
que quente
esfria meu dia
na garganta medita
e me concede harmonia
e equilíbrio estomacal.

Tenho fé
no café
expresso, pingado ou de padaria
que depois de bebido
serve de alívio
para todo e qualquer
desarranjo emocional.

Nudez

Já existe o desejo.
Desestruturado, se figura em instinto
na velocidade da vontade vira murmúrio.
As mãos percorrem todo tipo de forma,
os sentidos cegam.
A noite chega e com ela o êxtase do que não se pondera.
O impulso questiona a lógica.
Constrói então um muro,
cerca medrosa em torno do que já floresceu.
Gotejam memórias…
O que se fez, o que irá ser feito?
E o momento, precioso
é emoldurado e sagrado.
Mesmo na escuridão sente sua presença.